Meus queridos pais
Pensei em lhes mandar uma cartinha pela passagem do meu aniversário, no último dia 17, mas preferi esperar um pouquinho. Quem sabe assim, se vocês ainda não tivessem se encontrado por aí, no outro lado do caminho, teriam um pouquinho mais de tempo para isso acontecer. E se ainda não aconteceu, peço uma ajudinha a Deus e aos nossos amigos espirituais para que o encontro aconteça.
Ficarei muito feliz se vocês puderem ler esta carta juntos. Cada um lendo um pedacinho. Sim, papai, o senhor poderá ler, pois ao fazer a passagem não há nada mais que tire a luz dos seus olhos azuis. Acho que mamãe vai gostar muito de ouvir o senhor lendo com essa voz de locutor.
Durante o meu aniversário contei pra um monte de gente porque tenho duas datas. E como fui teimosa ao levar mais de 18 anos para aceitar que a data correta era o dia 17. Desculpa pela confusão que fiz na sua cabeça, mamãe. Como neguei durante tantos anos, a senhora não sabia se me dava os parabéns no dia 17 ou 19, data que o senhor colocou na Certidão de Nascimento, papai. Mas sempre lhe disse, depois disso, que me desse no dia em que a senhora me pariu. Afinal, nenhuma mãe esquece isso, né? Se quiser continuar me dando abraço nos dois dias, melhor ainda.
Às vezes conto também, papai, que quando eu era menina ficava muito triste porque o senhor não se lembrava do meu aniversário. Eram muitos filhos, muitas datas pra lembrar, né? E depois mais filhos ainda. Quando fiquei adulta, deixei de lado essa birra e passei a não esperar que o senhor lembrasse. Decidi que o meu aniversário era um dia ideal pra ligar pra vocês dois e agradecer por terem me recebido como filha, por terem aguentado tanta birra e por contribuírem para minha evolução. Se eu já amava vocês dois desde menina, como mulher passei a amar muito mais.
Vem na minha lembrança, mamãe, a senhora contando que eu fui uma bebê muito tranquila. Quieta e medrosa. Tanto que quando era colocada em um banco, com menos de 2 anos, ficava quietinha e não descia. Acho que nem tentava. Mas depois fui ficando curiosa e mais danada. Tanto que subi no pé de manga da nossa casa da antiga rua L (hoje rua das Camélias), 96, em Paulo Afonso, com menos de cinco anos e depois fiquei lá em cima, chorando, por não saber descer.
Na verdade, não lembro. Mas sei por que a senhora me contou, dizendo que teve que subir na mangueira, apesar de estar com um barrigão (pela idade que eu tinha, devia ser barriga de Cida). Mulher danada a senhora, viu? Acho que vocês já sabem há muito tempo que deixei o medo de lado e procurei ser uma mulher de coragem, inclusive para cuidar de vocês no que me fosse possível.
Sei que dei um trabalhinho pra vocês dois porque não gostava de comer, porque adorava dormir e porque adorava explorar cada canto permitido da Vila da Chesf. E por gostar de jogar ximbra (bola de gude, pra quem não sabe) com os meninos. Mas acho que depois vocês passaram a confiar mais em mim. Isso me fez muito bem.
Ter escolhido Jornalismo e depois reencontrar e voltar a namorar com Roberto também foram motivos de preocupação. O senhor, papai, dizia que jornalista passava fome. De fato, muitos até passam e raríssimos ficam ricos. Mas sempre amei o jornalismo e hoje amo e vivo da comunicação. Não podia ser diferente com alguém como eu, né? Sou faladeira. No bom sentido, claro. Rssss.
Quanto a Roberto, o senhor dizia que um homem separado com filho nunca seria um homem livre. O senhor acertou em parte. Com a ajuda do meu anjo da guarda consegui conduzir uma relação para viver em paz com a ex-mulher de Roberto e mãe de Acácio. Isa já retornou ao plano espiritual e sempre peço a Deus para que ela esteja em paz.

Nos abracem, se puderem, quando celebrarmos conquistas ou chorarmos frustrações. Não tenho como dizer que não tenham saudade, porque sei que ela existe em nós e em vocês.
Somem suas preces por paz e harmonia às nossas preces. Inspirem-nos a caminhar o caminho certo, da luz, do amor, da ética, da honra, da caridade e da solidariedade.
Mas, por favor, não se aflijam conosco ou com as nossas lutas. Vocês nos ensinaram a ser fortes e assim somos, cada um ao seu modo. Uns mais. Outros menos. Mas, fortes e capazes de prosseguir na jornada por aqui.

Falo com vocês do mesmo jeito que durante as minhas ligações telefônicas, nas quais conversava a perder a hora, principalmente quando percebia uma ponta de preocupação ou tristeza na voz de vocês.
Não tenho mediunidade para lhes ouvir daí do outro lado do caminho. Por isso meus monólogos. Mas sinto em meu coração que vocês se preocupam conosco. A senhora, mamãe, com o seu roseiral. O senhor, papai, com todos os seus 17 filhos e com Delma.
Não sofram pelas coisas mundanas, materiais, que façam parte das nossas lutas aqui neste lado do caminho. Vocês já lutaram as suas lutas. Lembrem-se do que lhes falei algumas vezes. Vocês sempre fizeram o melhor por todos nós. Fizeram a parte de vocês.
Cada filho seguiu o caminho escolhido. Agora, precisamos apenas que continuem a nos amar, com a certeza que esse amor é recíproco, alimentado todos os dias pela saudade. Assim, prosseguiremos bem, com vocês sempre em nossos corações.
No mais, meu obrigada a você, papai, e a você mamãe, por terem me recebido, me amado, aguentado as minhas birras, devaneios e explosões autoritárias. Obrigada por me ajudarem a crescer, a aprender, a amar, a perdoar.
Obrigada por terem tirado um pouquinho do tempo de vocês por aí para ler essa minha cartinha (modo de dizer, é claro, porque isso é praticamente um jornal, como diz Roberto). Mas, sou assim, meio ou muito prolixa quando é pra falar de amor, pra falar com vocês.
Coloquei a foto do casamento de vocês em agradecimento, porque foi a partir dele, o casamento, que eu cheguei aqui.
Amo vocês! Fiquem em paz!