terça-feira, 25 de julho de 2017

Apenas continuem a nos amar, com a certeza que esse amor é recíproco


Meus queridos pais

Pensei em lhes mandar uma cartinha pela passagem do meu aniversário, no último dia 17, mas preferi esperar um pouquinho. Quem sabe assim, se vocês ainda não tivessem se encontrado por aí, no outro lado do caminho, teriam um pouquinho mais de tempo para isso acontecer. E se ainda não aconteceu, peço uma ajudinha a Deus e aos nossos amigos espirituais para que o encontro aconteça.

Ficarei muito feliz se vocês puderem ler esta carta juntos. Cada um lendo um pedacinho. Sim, papai, o senhor poderá ler, pois ao fazer a passagem não há nada mais que tire a luz dos seus olhos azuis. Acho que mamãe vai gostar muito de ouvir o senhor lendo com essa voz de locutor.

Durante o meu aniversário contei pra um monte de gente porque tenho duas datas. E como fui teimosa ao levar mais de 18 anos para aceitar que a data correta era o dia 17. Desculpa pela confusão que fiz na sua cabeça, mamãe. Como neguei durante tantos anos, a senhora não sabia se me dava os parabéns no dia 17 ou 19, data que o senhor colocou na Certidão de Nascimento, papai. Mas sempre lhe disse, depois disso, que me desse no dia em que a senhora me pariu. Afinal, nenhuma mãe esquece isso, né? Se quiser continuar me dando abraço nos dois dias, melhor ainda.

Às vezes conto também, papai, que quando eu era menina ficava muito triste porque o senhor não se lembrava do meu aniversário. Eram muitos filhos, muitas datas pra lembrar, né? E depois mais filhos ainda. Quando fiquei adulta, deixei de lado essa birra e passei a não esperar que o senhor lembrasse.  Decidi que o meu aniversário era um dia ideal pra ligar pra vocês dois e agradecer por terem me recebido como filha, por terem aguentado tanta birra e por contribuírem para minha evolução. Se eu já amava vocês dois desde menina, como mulher passei a amar muito mais.

Vem na minha lembrança, mamãe, a senhora contando que eu fui uma bebê muito tranquila. Quieta e medrosa. Tanto que quando era colocada em um banco, com menos de 2 anos, ficava quietinha e não descia. Acho que nem tentava. Mas depois fui ficando curiosa e mais danada. Tanto que subi no pé de manga da nossa casa da antiga rua L (hoje rua das Camélias), 96, em Paulo Afonso, com menos de cinco anos e depois fiquei lá em cima, chorando, por não saber descer.

Na verdade, não lembro. Mas sei por que a senhora me contou, dizendo que teve que subir na mangueira, apesar de estar com um barrigão (pela idade que eu tinha, devia ser barriga de Cida). Mulher danada a senhora, viu?  Acho que vocês já sabem há muito tempo que deixei o medo de lado e procurei ser uma mulher de coragem, inclusive para cuidar de vocês no que me fosse possível.

Sei que dei um trabalhinho pra vocês dois porque não gostava de comer, porque adorava dormir e porque adorava explorar cada canto permitido da Vila da Chesf. E por gostar de jogar ximbra (bola de gude, pra quem não sabe) com os meninos. Mas acho que depois vocês passaram a confiar mais em mim. Isso me fez muito bem.

Ter escolhido Jornalismo e depois reencontrar e voltar a namorar com Roberto também foram motivos de preocupação. O senhor, papai, dizia que jornalista passava fome. De fato, muitos até passam e raríssimos ficam ricos. Mas sempre amei o jornalismo e hoje amo e vivo da comunicação. Não podia ser diferente com alguém como eu, né? Sou faladeira. No bom sentido, claro. Rssss.

Quanto a Roberto, o senhor dizia que um homem separado com filho nunca seria um homem livre. O senhor acertou em parte. Com a ajuda do meu anjo da guarda consegui conduzir uma relação para viver em paz com a ex-mulher de Roberto e mãe de Acácio. Isa já retornou ao plano espiritual e sempre peço a Deus para que ela esteja em paz.

Agora quero falar sério com vocês, seu Nilton e dona Nicinha. Recebam as nossas emanações de amor, recebam a nossa saudade e a nossa gratidão. Riam conosco quando sentirem nossas lembranças gostosas de momentos com vocês.

Nos abracem, se puderem, quando celebrarmos conquistas ou chorarmos frustrações. Não tenho como dizer que não tenham saudade, porque sei que ela existe em nós e em vocês.

Somem suas preces por paz e harmonia às nossas preces. Inspirem-nos a caminhar o caminho certo, da luz, do amor, da ética, da honra, da caridade e da solidariedade.

Mas, por favor, não se aflijam conosco ou com as nossas lutas. Vocês nos ensinaram a ser fortes e assim somos, cada um ao seu modo. Uns mais. Outros menos. Mas, fortes e capazes de prosseguir na jornada por aqui.


Tá bom... Estou com aquele jeitão mandão, de filha que acha que é o pai ou a mãe dos pais. Mas, como já disse à senhora, mamãe, e ao senhor, papai, na vida muitas vezes os papéis se invertem. Só que agora o caso não é esse.

Falo com vocês do mesmo jeito que durante as minhas ligações telefônicas, nas quais conversava a perder a hora, principalmente quando percebia uma ponta de preocupação ou tristeza na voz de vocês.

Não tenho mediunidade para lhes ouvir daí do outro lado do caminho. Por isso meus monólogos. Mas sinto em meu coração que vocês se preocupam conosco. A senhora, mamãe, com o seu roseiral. O senhor, papai, com todos os seus 17 filhos e com Delma.

Não sofram pelas coisas mundanas, materiais, que façam parte das nossas lutas aqui neste lado do caminho. Vocês já lutaram as suas lutas. Lembrem-se do que lhes falei algumas vezes. Vocês sempre fizeram o melhor por todos nós. Fizeram a parte de vocês.

Cada filho seguiu o caminho escolhido. Agora, precisamos apenas que continuem a nos amar, com a certeza que esse amor é recíproco, alimentado todos os dias pela saudade. Assim, prosseguiremos bem, com vocês sempre em nossos corações.

No mais, meu obrigada a você, papai, e a você mamãe, por terem me recebido, me amado, aguentado as minhas birras, devaneios e explosões autoritárias. Obrigada por me ajudarem a crescer, a aprender, a amar, a perdoar.

Obrigada por terem tirado um pouquinho do tempo de vocês por aí para ler essa minha cartinha (modo de dizer, é claro, porque isso é praticamente um jornal, como diz Roberto). Mas, sou assim, meio ou muito prolixa quando é pra falar de amor, pra falar com vocês.

Coloquei a foto do casamento de vocês em agradecimento,  porque foi a partir dele, o casamento, que eu cheguei aqui.

Amo vocês! Fiquem em paz!

terça-feira, 4 de julho de 2017

O amor fortalece a quem parte

Querido papai


Desde que o senhor fez a passagem de retorno ao lar espiritual que eu queria mandar essa carta. Mas preferi esperar que o senhor se fortalecesse mais. Afinal, foram muitas as dores do corpo, e talvez da alma, que lhe judiaram até a sua despedida, há exatos 30 dias. 

Meu desejo de que esteja mais forte é para que possa ler com os olhos do seu espírito imortal as palavras que aqui coloco com muito amor e saudade.

O senhor me conhece como ninguém. Sabe como amo intensamente. Mas sabe também como tenho essa tendência ao orgulho e à autossuficiência, marcas genéticas que herdei do senhor. Com essas características passo uma ideia de ser mais forte do que realmente sou, pois evito mostrar, e até mesmo sentir, sentimentos que me deixem triste e pra baixo. 

Queria ter herdado seu jeito espirituoso e bem humorado, mas passei longe disso. Claro que Roberto (o meu marido, não o seu filho) garante que mudei muito e, se ele está dizendo isso, quem sou eu pra desmentir.

Sabe, papai, tem uma música dos Titãs ...um grupo de Rock nacional...sei que o senhor não era muito chegado nesse gênero de música, mas mesmo assim vou citar. Tem uma música do Titãs chamada Epitáfio, que fala de coisas que deveria ter feito. E esse pedacinho, mais especificamente, fala um pouco do que sinto:

(...)Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer (...)



Nesses últimos três anos deixei que a mágoa tomasse conta de mim e reduzi a intensidade dos meus contatos. Eu não queria sofrer e nem fazer sofrer. Tudo bem, papai. Fique tranquilo que não estou amargurada ou mesmo com remorso. Como disse, estou cheia de amor e saudade. 

Não tenho dor. Mas, se eu tivesse sido um pouco mais corajosa e determinada na minha missão de paz, quem sabe tudo teria sido diferente e o senhor poderia ter recebido ainda mais amor...meu e de todos os outros dezesseis filhos, principalmente de nós 11 que o ligam à minha querida Nicinha. Se...Se...

Só em dezembro passado decidi limpar toda e qualquer mágoa, de quem quer que seja, do meu coração. E tomei iniciativas de reaproximação com as pessoas envolvidas neste grande laço de união com o senhor. Mas fui com medo. Fui devagarinho, evitando conflitos. 

Acho que esse meu amor por Roberto, que me faz ter confiança no que ele diz, me fez acreditar que o senhor era imortal. Ou quase. Roberto é que me dizia que o senhor era muito forte. E eu acreditava nisso. O senhor foi e é um homem muito forte. Mas, frágil ao mesmo tempo. E eu queria apenas que soubesse do meu amor, sem atritos com ninguém pra me fazer presente ao seu lado.

Roberto também acha que sou muito forte e parecida com o senhor. E por isso se assustou quando desabei no choro ao saber que o senhor havia partido. Não que eu conteste a vontade de Deus. 

Que bom que havíamos nos falado no dia anterior por telefone e tínhamos declarado nosso amor recíproco. Um amor tão intenso e recíproco como o vivido por todos os seus filhos. Com todos nós.

Mas, papai, não deixei pra escrever agora só para lhe falar sobre isso. Escrevo porque acredito que o senhor se refaz aos poucos. Agora, o senhor vê que não há morte; apenas novo formato de vida. E quero que nessa sua vida espiritual o senhor também se alimente de amor, do meu amor, do nosso amor. 

Sei que ao seu lado estão pessoas queridas. Tem um filme aqui chamado "as cinco pessoas que você vai encontrar no céu". Não sabemos se são cinco, se mais ou se menos que cinco. Mas, acredito que reencontramos pessoas com quem temos vínculos de amor. E tem muita gente querida por aí, nesse outro lado do caminho, né? Tem vovó Floriza e vovô João, tem sua madrinha e alguns dos seus irmãos. 

Tem também mamãe, que sempre o amou e que retornou há quase três anos. Se encontros de fato forem permitidos, o senhor será fortalecido com tanto carinho e amor.


Não se aflija por nós, que aqui continuamos nesta caminhada. Com a sua bênção, a bênção de mamãe e a bênção de Deus, vamos trilhando um passo atrás do outro em busca de acertar.

Se errarmos, não foi por querermos. Se errarmos, vamos levantar e tentar corrigir. Estamos, individualmente e em proporções característica a cada um, empenhados em acertar o caminho da paz e da harmonia. 

Quero que nós possamos potencializar o amor que recebemos aos longos de tantas décadas. Quero, em gratidão, amar mais. Quero aprender a aceitar as pessoas como elas são. Como ainda diz Titãs, "Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração".

Eu tem amo, viu? Muito. E por esse amor contei sua história logo depois da sua despedida no meu outro blog - Forquilha. Sempre tive muito orgulho de você. Mais de 700 pessoas leram sobre a sua história com a Chesf.  

Epa! Não quero lágrimas em seus olhos azuis. Nem quero ver sombra de medo por estar no outro lado do caminho. Quero brilho de amor e até de saudade. Estamos aqui porque o senhor nos recebeu. E porque garantiu que todos nós tivéssemos o que comer, o que vestir e que estudássemos. Deus achou que era hora de um homem trabalhador como senhor descansar um pouco. 

Depois escrevo mais uma cartinha. Por enquanto, receba meu amor, minha saudade e minha gratidão. Fique em paz!

Sua filha Vanda.

Cuide dos laços de amor: em um piscar de olhos a vida passa

Vanda Amorim · Cuide dos laços de amor: em um piscar de olhos a vida passa Oi, tio Mariano Tudo bem? Num piscar de olhos já se passaram...

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