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sábado, 8 de outubro de 2022

Apaguei a mágoa que sentia por não ter tido meu pai como antes

Querido papai

Desejo que esta cartinha o encontre bem e em paz aí do outro lado do caminho. Já faz mais de um ano que mandei uma cartinha pro senhor. Sem falar da que mandei para o senhor e mamãe, para lerem juntos, no Natal. Peço desculpas. Não ter mandado mais uma cartinha pro céu não significa que eu não tenha saudade. Tenho, e não é pequena. Como poderia não sentir saudade do senhor, meu amor, meu ídolo e minha inspiração para gostar de trabalhar? Tenho saudade sim e muito amor.

Por que então demorei tanto? É que levou tempo para eu entender algumas coisas, entre elas, porque fiquei brava com o senhor depois do Dia dos Pais, no ano em que mamãe regressou ao lar espiritual. Lembro-me que estava na Eletrônica o senhor, eu, Tata, Toca e Sandrinha. O senhor achava que eu tinha que ir conversar com Delma, para explicar melhor o que tinha dito e gerado tanta confusão. Eu disse que não ia. Que o senhor poderia muito bem explicar a diferença entre compreensiva e mais compreensiva. 

Muito zangada, disse ao senhor que eu havia cansado de fazer o seu papel na missão de unir todos os seus filhos, os de mamãe com os de Delma. Disse, ainda, que não ia mais mendigar que o senhor fosse nos ver no final do ano porque para isso bastava o senhor querer e pedir para que um de nós fosse buscá-lo. Eu estava muito triste. Muito mesmo. Nós choramos, mas eu não quis mais conversa. Disse apenas que eu ia amá-lo sempre e que toda vez que eu fosse a Paulo Afonso eu iria vê-lo, fosse na sua casa ou na Eletrônica.

No final do ano, nova frustração. Fui à sua casa pra conversarmos e não consegui ter 5 minutos sequer com o senhor, só nós dois. Perguntei por que a gente não podia conversar só e o senhor disse "vou fazer o quê, minha filha? Pedir que as pessoas nos deixem sozinhas?". Eu respondi que sim, porque o senhor tinha direito a conversar sozinho com sua filha. Mas não foi o que aconteceu, né?

Quando o senhor desencarnou, fiquei arrasada. Roberto estranhou, perguntando por que eu não estava reagindo da mesma forma de quando foi o regresso de mamãe. Eu respondi que mamãe era nossa integralmente. Éramos amigas, mãe e filha, às vezes invertendo os papéis. Eu sabia que após tanto conversar com as filhas e ler sobre o mundo espiritual, de perdoá-lo e continuar a amá-lo incondicionalmente, mamãe estava de malas prontas. O que não significava, claro, que ela quisesse partir naquele 1ª de agosto de 2014. 

Mas, por ter acreditado na minha definição da infância de que o senhor era meu herói, e heróis não morrem, até me deixei contagiar pela ideia, ou melhor, a certeza de que o senhor era imortal. Eu ainda o via tão apegado às suas coisas, à eletrônica, que temia como seria o seu despertar no outro lado do caminho. Chorei também porque não pude, não pudemos, cuidar do senhor em algum momento, como queríamos, como fizemos com mamãe. O curioso é que eu sabia que o senhor precisava regressar. Meu cérebro havia processado a informação, mas meu coração, não. Nem mesmo ter ouvido o senhor dizer que me amava, por telefone, na véspera da sua partida, aliviou minha dor.

Então, outro dia, assistindo um filme que abordava a relação de um pai com o filho, parecida com a nossa, caí no choro. Vi que entre mim e o senhor era a mesma coisa. Ainda com a sua vida terrena sentia muita a sua falta. Eu queria que tudo continuasse como quando voltei a morar em Paulo Afonso, em 1986, quando fui trabalhar com Zé Ivaldo na Prefeitura. Naquele período pelo menos uma vez por semana o senhor ia me buscar no trabalho e sentávamos em algum canto para conversarmos, pra que eu falasse de mim, o senhor falasse de si e podermos saber como estávamos nos sentindo. Pra que a gente risse junto.

Mas, com o passar do tempo, isso foi ficando cada vez mais difícil, principalmente depois que mudei pra Salvador e ia apenas duas vezes no ano; depois que a vida lhe tirou a visão, deixando que seus lindos olhos azuis vissem apenas sombras. Eu procurava compensar ligando pro senhor e falando por um tempo. Não me importava se a conta ficasse alta. Depois, até mesmo falar por telefone ficou difícil. Sem a visão, o senhor não sabia que o celular tinha descarregado e nem sempre conseguia falar pelo telefone fixo, que dava ocupado ou chamava e ninguém atendia.

Apesar de saber da fragilidade em que se encontrava - idoso e cego, sem autonomia, eu achava que o senhor tinha que defender nosso direito de amá-lo, de abraçá-lo, sem ser com hora marcada e apenas na Eletrônica, seu refúgio. Acho que a dor que eu sentia devia ser igual ao que os outros filhos do Roseiral de mamãe sentiam. Como foi difícil, principalmente depois da partida de mamãe, só poder vê-lo na eletrônica. E quando o senhor adoeceu, doeu mais ainda, porque não conseguíamos ficar com o senhor. Os conflitos tinham voltado desde que aconteceu a formalização do seu segundo casamento sem que nenhum de nós soubesse. Sim, eu lembro que o senhor justificou e eu entendi, mas isso não tirou nossa tristeza. 

Na Semana Santa de 2017, ano em que o senhor regressou ao lar espiritual, eu quis muito ir pra Paulo Afonso, para abraçá-lo, mas Roberto achou melhor não. "Você não vai conseguir vê-lo e vai chorar", disse ele. E não fomos. Quando o vi de novo, em 4 de junho, o senhor não estava mais lá, apenas o corpo que lhe fora emprestado por quase 84 anos.  No velório, quando o padre falou da sua solidão confessada, chorei porque constatava que o senhor sentia o mesmo que a gente.  Ainda falei alguma coisa ali, mas não consegui lhe fazer uma homenagem, no sepultamento, como fiz à mamãe, à tia Neném e à tia Teca. Toca pediu que eu fizesse, mas não me senti à vontade. Como aconteceu durante tantos anos, eu sentia que tinha muitos olhos me olhando, alguns não muito amistosos. E eu não queria falar para tantas pessoas; queria ter conversado sozinha com o senhor.

Papai, não pense que é fácil falar tudo isso. Por isso adiei por muito tempo. São 5 anos desde sua partida. Eu não estava pronta e nem queria fazê-lo chorar; não queria incomodá-lo nesta sua fase exclusivamente espiritual, onde busca a regeneração das dores aqui sofridas. Mas precisava liberar de vez meu coração dessa mágoa. Hoje não choro como aconteceu em outros dias, quando eu pensava em escrever esta carta. Hoje, mais que nunca, o amo incondicionalmente. Muito, como sempre. 

Desejo de todo coração que o senhor também fique leve, que possamos restabelecer nossa conexão e, quiçá, termos uma autorização para que, enquanto o meu corpo repousa, nos encontrarmos, nos abraçarmos fortes e dizermos pessoalmente o quanto nos amamos. 

O senhor tem visto mamãe? Há três dias mandei uma cartinha pra ela e contei que finalmente vou conseguir publicar meus textos. Em breve terei lançado dois livros e estou muito feliz. Um é de poesias e outro sobre memórias afetivas da infância. Veja com mamãe os detalhes, tá? Se vir vovô João e vovó Floriza, tio Manoel, tio Mariano e seus outros irmãos e sobrinhos que estão por aí, diga que tenho saudade deles e mando um abraço.

Vou ficando por aqui, papai, com a certeza que, a partir de agora, caminharemos melhor. Eu o amo muito, do tamanho do universo.

Da sua filha tagarela,

Vanda.

 

terça-feira, 25 de julho de 2017

Apenas continuem a nos amar, com a certeza que esse amor é recíproco


Meus queridos pais

Pensei em lhes mandar uma cartinha pela passagem do meu aniversário, no último dia 17, mas preferi esperar um pouquinho. Quem sabe assim, se vocês ainda não tivessem se encontrado por aí, no outro lado do caminho, teriam um pouquinho mais de tempo para isso acontecer. E se ainda não aconteceu, peço uma ajudinha a Deus e aos nossos amigos espirituais para que o encontro aconteça.

Ficarei muito feliz se vocês puderem ler esta carta juntos. Cada um lendo um pedacinho. Sim, papai, o senhor poderá ler, pois ao fazer a passagem não há nada mais que tire a luz dos seus olhos azuis. Acho que mamãe vai gostar muito de ouvir o senhor lendo com essa voz de locutor.

Durante o meu aniversário contei pra um monte de gente porque tenho duas datas. E como fui teimosa ao levar mais de 18 anos para aceitar que a data correta era o dia 17. Desculpa pela confusão que fiz na sua cabeça, mamãe. Como neguei durante tantos anos, a senhora não sabia se me dava os parabéns no dia 17 ou 19, data que o senhor colocou na Certidão de Nascimento, papai. Mas sempre lhe disse, depois disso, que me desse no dia em que a senhora me pariu. Afinal, nenhuma mãe esquece isso, né? Se quiser continuar me dando abraço nos dois dias, melhor ainda.

Às vezes conto também, papai, que quando eu era menina ficava muito triste porque o senhor não se lembrava do meu aniversário. Eram muitos filhos, muitas datas pra lembrar, né? E depois mais filhos ainda. Quando fiquei adulta, deixei de lado essa birra e passei a não esperar que o senhor lembrasse.  Decidi que o meu aniversário era um dia ideal pra ligar pra vocês dois e agradecer por terem me recebido como filha, por terem aguentado tanta birra e por contribuírem para minha evolução. Se eu já amava vocês dois desde menina, como mulher passei a amar muito mais.

Vem na minha lembrança, mamãe, a senhora contando que eu fui uma bebê muito tranquila. Quieta e medrosa. Tanto que quando era colocada em um banco, com menos de 2 anos, ficava quietinha e não descia. Acho que nem tentava. Mas depois fui ficando curiosa e mais danada. Tanto que subi no pé de manga da nossa casa da antiga rua L (hoje rua das Camélias), 96, em Paulo Afonso, com menos de cinco anos e depois fiquei lá em cima, chorando, por não saber descer.

Na verdade, não lembro. Mas sei por que a senhora me contou, dizendo que teve que subir na mangueira, apesar de estar com um barrigão (pela idade que eu tinha, devia ser barriga de Cida). Mulher danada a senhora, viu?  Acho que vocês já sabem há muito tempo que deixei o medo de lado e procurei ser uma mulher de coragem, inclusive para cuidar de vocês no que me fosse possível.

Sei que dei um trabalhinho pra vocês dois porque não gostava de comer, porque adorava dormir e porque adorava explorar cada canto permitido da Vila da Chesf. E por gostar de jogar ximbra (bola de gude, pra quem não sabe) com os meninos. Mas acho que depois vocês passaram a confiar mais em mim. Isso me fez muito bem.

Ter escolhido Jornalismo e depois reencontrar e voltar a namorar com Roberto também foram motivos de preocupação. O senhor, papai, dizia que jornalista passava fome. De fato, muitos até passam e raríssimos ficam ricos. Mas sempre amei o jornalismo e hoje amo e vivo da comunicação. Não podia ser diferente com alguém como eu, né? Sou faladeira. No bom sentido, claro. Rssss.

Quanto a Roberto, o senhor dizia que um homem separado com filho nunca seria um homem livre. O senhor acertou em parte. Com a ajuda do meu anjo da guarda consegui conduzir uma relação para viver em paz com a ex-mulher de Roberto e mãe de Acácio. Isa já retornou ao plano espiritual e sempre peço a Deus para que ela esteja em paz.

Agora quero falar sério com vocês, seu Nilton e dona Nicinha. Recebam as nossas emanações de amor, recebam a nossa saudade e a nossa gratidão. Riam conosco quando sentirem nossas lembranças gostosas de momentos com vocês.

Nos abracem, se puderem, quando celebrarmos conquistas ou chorarmos frustrações. Não tenho como dizer que não tenham saudade, porque sei que ela existe em nós e em vocês.

Somem suas preces por paz e harmonia às nossas preces. Inspirem-nos a caminhar o caminho certo, da luz, do amor, da ética, da honra, da caridade e da solidariedade.

Mas, por favor, não se aflijam conosco ou com as nossas lutas. Vocês nos ensinaram a ser fortes e assim somos, cada um ao seu modo. Uns mais. Outros menos. Mas, fortes e capazes de prosseguir na jornada por aqui.


Tá bom... Estou com aquele jeitão mandão, de filha que acha que é o pai ou a mãe dos pais. Mas, como já disse à senhora, mamãe, e ao senhor, papai, na vida muitas vezes os papéis se invertem. Só que agora o caso não é esse.

Falo com vocês do mesmo jeito que durante as minhas ligações telefônicas, nas quais conversava a perder a hora, principalmente quando percebia uma ponta de preocupação ou tristeza na voz de vocês.

Não tenho mediunidade para lhes ouvir daí do outro lado do caminho. Por isso meus monólogos. Mas sinto em meu coração que vocês se preocupam conosco. A senhora, mamãe, com o seu roseiral. O senhor, papai, com todos os seus 17 filhos e com Delma.

Não sofram pelas coisas mundanas, materiais, que façam parte das nossas lutas aqui neste lado do caminho. Vocês já lutaram as suas lutas. Lembrem-se do que lhes falei algumas vezes. Vocês sempre fizeram o melhor por todos nós. Fizeram a parte de vocês.

Cada filho seguiu o caminho escolhido. Agora, precisamos apenas que continuem a nos amar, com a certeza que esse amor é recíproco, alimentado todos os dias pela saudade. Assim, prosseguiremos bem, com vocês sempre em nossos corações.

No mais, meu obrigada a você, papai, e a você mamãe, por terem me recebido, me amado, aguentado as minhas birras, devaneios e explosões autoritárias. Obrigada por me ajudarem a crescer, a aprender, a amar, a perdoar.

Obrigada por terem tirado um pouquinho do tempo de vocês por aí para ler essa minha cartinha (modo de dizer, é claro, porque isso é praticamente um jornal, como diz Roberto). Mas, sou assim, meio ou muito prolixa quando é pra falar de amor, pra falar com vocês.

Coloquei a foto do casamento de vocês em agradecimento,  porque foi a partir dele, o casamento, que eu cheguei aqui.

Amo vocês! Fiquem em paz!

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