Oi, papai.
Como o senhor está? Já sei. Tá sentado. Ahãmmmmm. Peguei o senhor. Nem dei tempo de o senhor me responder com gracinha, como sempre fez quando nos falávamos por telefone. hahaha.
Agora, falando sério, papai: como está sua vida por aí? Desejo que bem. E que esteja conseguindo participar das atividades no outro lado do caminho. Sei do seu apego ao trabalho e à sua família; acredito que não seja mesmo fácil deixar tudo pra trás.
O senhor deve estar dizendo que é fácil falar. Realmente é fácil falar, principalmente porque não temos, aqui encarnados, lembranças de como possa ter sido o retorno após outras vidas. Mas por acreditar que a vida prossegue, apenas sem o corpo carnal, imagino os aperreios de quem é muito apegado às pessoas e coisas daqui. Por isso meu desejo diário é que esteja bem, em paz, recuperado das dores e da cegueira física que o acometeu por mais de 10 anos, limitando a sua autonomia e a sua liberdade de ir e vir.
Neste período de agosto, dedicado aos pais (dia dos pais é todo dia também, né?) e ao seu dia da chegada a este lado do caminho na sua última encarnação, vem um turbilhão de lembranças. Pelo menos a cada cinco ou seis anos seu aniversário (hoje, 12) coincidiu com o segundo domingo do mês, Dia dos Pais. Foi assim em 2007, 2012 e 2018. Neste último nós já não estávamos com o senhor aqui presente fisicamente, conosco.
Apesar de no domingo ter sentido uma vontade danada de mandar esta cartinha ao céu, preferi enviar hoje. Mas acho que o senhor recebeu aí em seu coração um calorzinho pelo meu amor, que enviei em prece e um monte de beijo em sua fotinha. Uma em que o senhor está com mamãe. Guardo ela em cima de um móvel, visível, pra dar em vocês mil beijinhos sempre que entro na saleta onde ficava o telefone, lembra? É por ela que toco a testa de vocês pedindo a Deus que estejam bem aí, no lar espiritual.![]() |
Imitação da botinha que fiz |
Lembrei dos almoços do Dia dos Pais, em que vinham pra nossa casa minhas tias Neném e Teca, com seus maridos e filhos. Era muito bom. Ríamos, corríamos, brincávamos enquanto o senhor, Abel e padrinho Antenor conversavam e bebiam alguma coisa. Tudo bem, sei que ele é padrinho só de Toca, mas é o costume. Mamãe e as irmãs faziam o almoço. Mas eu gostava mesmo quando o senhor dançava conosco, crianças, cada uma por vez, com os pés em cima dos seus. Ai, eu amava! Foi assim que aprendi a dançar e a gostar disso.
Como sai de casa para estudar no Recife antes de completar 18 anos, essa celebração passou a acontecer, entre mim e o senhor, por telefone. Seis anos depois pude comemorar junto com o senhor, quando voltei pra Paulo Afonso e fiquei lá por mais dois anos.
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Suas bisnetas Sophia e Nathalia e seu bisneto Arthur |
Lembrei também do último dia dos pais em que estivemos juntos. Agosto de 2014, mês e ano em que nos despedimos de mamãe. Decidi ficar em Paulo Afonso até seu aniversário. Apesar de o dia não ter começado bem, por motivos que nós sabemos e não cabe aqui falar, ele terminou bem, com a sua visita a nós, seus filhos, netos e bisnetos. Estávamos ali, na nossa casa, com o coração saudoso por mamãe, carentes de um abraço do pai. Sua ida, à noite, levado por Helton, foi muito importante para todo o Roseiral de dona Nicinha. A felicidade é refletida nessas fotos. No sorriso de nós, seus filhos, e dos seus netos que ali estavam.
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Registro do nosso tão lindo encontro |
Hoje em nossos grupos do Whatsapp foi uma avalanche de emoções. Igual ao domingo. Pense na quantidade de fotos que buscamos em nossos arquivos. Sabe pra quê? Pra emanar muiiiito amor para o senhor. Para que receba em luz a nossa gratidão. Para que sinta no coração um calorzinho de amor e saudade e perceba que estamos bem. E é assim que queremos que o senhor esteja: bem e em paz. Foram muitos os seus desafios aqui, que consumiram muito da sua energia. É tempo de recuperação, de regeneração. É tempo de crescimento. De aguardar para que, no momento certo, possamos nos reencontrar e, quem sabe, caminharmos juntos em nova reencarnação.
Ah, antes que eu esqueça, nasceu um monte de bisneto desde a sua partida. Anhia ganhou mais uma neta, Beatriz (mais uma na família, né?), filha de Vanessa e Tiago, e um neto, Eduardo, de Evanice e Rafael. Tinho ganhou mais quatro netos - Havy e Alexia, de Naira, que os adotou (um grande gesto de amor); Davi, de Rodrigo e Marília; e Bernardo, de Bárbara e Ezio. Eu também ganhei o neto Leon, de Kaká e Bruna, mas já lhe contei isso, né? Ele fala pelos cotovelos igual a mim, acredite. Lu agora é avó. Pense numa vó doida. Ave Maria.. É de Irla e Felipe. A menina, Íris, é a xerox de Irla. E o caçulinha é Matheus, mais um neto de Tata e Antão, filho de Ítalo e Eliene. Mas acho que o senhor encontrou mamãe por esses dias e ela deve ter contado e mostrado as fotos desses bisnetos. Tomara que sim.
Eu o amo desde sempre, papai. Acredito até que de outras vidas. O senhor foi o homem que primeiro amei, o pai que admirei, o profissional que me orgulhava, o exemplo para buscar conhecimento e abraçar uma profissão com compromisso.
Hoje quero que sinta meu abraço forte. Se conseguirmos nos encontrar em sonho, quem sabe até conversarmos um pouquinho sobre política, embora atualmente só dá pra ter raiva e indignação. Melhor não. Bora conversar sobre nós e nossa saudade.
Sempre o amamos, papai. Sempre. E para sempre o amaremos.
Um xeiro da sua filha tagarela. O beijo das outras filhas e filhos o senhor já deve ter recebido também. É que eu gosto de carta. Vai ver que é a força do hábito da profissão.
Vanda.