quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Desapego é importante para despedidas

 

Oi, papai. 

Como o senhor está? Já sei. Tá sentado. Ahãmmmmm. Peguei o senhor. Nem dei tempo de o senhor me responder com gracinha, como sempre fez quando nos falávamos por telefone. hahaha.

Agora, falando sério, papai: como está sua vida por aí? Desejo que bem. E que esteja conseguindo participar das atividades no outro lado do caminho. Sei do seu apego ao trabalho e à sua família; acredito que não seja mesmo fácil deixar tudo pra trás.

O senhor deve estar dizendo que é fácil falar. Realmente é fácil falar, principalmente porque não temos, aqui encarnados, lembranças de como possa ter sido o retorno após outras vidas. Mas por acreditar que a vida prossegue, apenas sem o corpo carnal, imagino os aperreios de quem é muito apegado às pessoas e coisas daqui. Por isso meu desejo diário é que esteja bem, em paz, recuperado das dores e da cegueira física que o acometeu por mais de 10 anos, limitando a sua autonomia e a sua liberdade de ir e vir.

Neste período de agosto, dedicado aos pais (dia dos pais é todo dia também, né?) e ao seu dia da chegada a este lado do caminho na sua última encarnação, vem um turbilhão de lembranças. Pelo menos a cada cinco ou seis anos seu aniversário (hoje, 12) coincidiu com o segundo domingo do mês, Dia dos Pais.  Foi assim em 2007, 2012 e 2018. Neste último nós já não estávamos com o senhor aqui presente fisicamente, conosco.

Apesar de no domingo ter sentido uma vontade danada de mandar esta cartinha ao céu, preferi enviar hoje. Mas acho que o senhor recebeu aí em seu coração um calorzinho pelo meu amor, que enviei em prece e um monte de beijo em sua fotinha. Uma em que o senhor está com mamãe. Guardo ela em cima de um móvel, visível, pra dar em vocês mil beijinhos sempre que entro na saleta onde ficava o telefone, lembra? É por ela que toco a testa de vocês pedindo a Deus que estejam bem aí, no lar espiritual.

Imitação da botinha que fiz
Como era o Dia dos Pais, lembrei que no meu primeiro ano na escola, no pré, com 7 anos, a professora fez com que a gente preparasse em cartolina botinhas com mensagens aos nossos pais. Com minha letra trêmula, de quem estava começando na escrita, eu dizia "Papai, eu te amo. Feliz Dia dos Pais". Dentro da bota, um par de meias. Eu guardei como um tesouro na sexta-feira, ansiosa para entregar logo. Mas mamãe não deixou. No domingo, cedinho, levantei primeiro que todas minhas irmãs e irmãos, peguei a botinha de cartolina azul e corri pra lhe dar o presente. O senhor já tinha levantado e estava no banheiro, fazendo a barba. Cheguei em suas pernas e o abracei. Mamãe olhava do lado de fora do banheiro Com o rosto cheio da espuma de barbear o senhor se virou, se abaixou e vi amor em seus olhos azuis tão lindos. "Um presente pra mim? Obrigado, minha filha", disse com sua voz grave, me dando um abraço com cuidado para não me sujar de espuma. Não que eu me incomodasse. Eu só queria o abraço. Depois saí do banheiro correndo feliz. Missão cumprida.

Lembrei dos almoços do Dia dos Pais, em que vinham pra nossa casa minhas tias Neném e Teca, com seus maridos e filhos. Era muito bom. Ríamos, corríamos, brincávamos enquanto o senhor, Abel e padrinho Antenor conversavam e bebiam alguma coisa. Tudo bem, sei que ele é padrinho só de Toca, mas é o costume. Mamãe e as irmãs faziam o almoço. Mas eu gostava mesmo quando o senhor dançava conosco, crianças, cada uma por vez, com os pés em cima dos seus. Ai, eu amava!  Foi assim que aprendi a dançar e a gostar disso.

Como sai de casa para estudar no Recife antes de completar 18 anos, essa celebração passou a acontecer, entre mim e o senhor, por telefone. Seis anos depois pude comemorar junto com o senhor, quando voltei pra Paulo Afonso e fiquei lá por mais dois anos.

Suas bisnetas Sophia e Nathalia e seu bisneto Arthur

Lembrei também do último dia dos pais em que estivemos juntos. Agosto de 2014, mês e ano em que nos despedimos de mamãe. Decidi ficar em Paulo Afonso até seu aniversário. Apesar de o dia não ter começado bem, por motivos que nós sabemos e não cabe aqui falar, ele terminou bem, com a sua visita a nós, seus filhos, netos e bisnetos. Estávamos ali, na nossa casa, com o coração saudoso por mamãe, carentes de um abraço do pai. Sua ida, à noite, levado por Helton, foi muito importante para todo o Roseiral de dona Nicinha. A felicidade é refletida nessas fotos. No sorriso de nós, seus filhos, e dos seus netos que ali estavam.

Registro do nosso tão lindo encontro
Talvez nem sempre o senhor tenha tido noção de quanto o amamos. Cada um do seu jeito: beijoqueiros, retraídos, invocados, brigões. Mas todos ficavam felizes com um abraço e um "Deus te abençoe". Todos se angustiavam quando não podíamos encontrar com o senhor. Não importava que crescemos. Não importava o distanciamento - sete dos 11 moravam fora de Paulo Afonso. Nada impediu o nosso amor. E assim continua sendo, papai, mesmo o senhor tendo encontrado o caminho de volta ao lar espiritual há 4 anos.

Hoje em nossos grupos do Whatsapp foi uma avalanche de emoções. Igual ao domingo. Pense na quantidade de fotos que buscamos em nossos arquivos. Sabe pra quê? Pra emanar muiiiito amor para o senhor. Para que receba em luz a nossa gratidão. Para que sinta no coração um calorzinho de amor e saudade e perceba que estamos bem. E é assim que queremos que o senhor esteja: bem e em paz. Foram muitos os seus desafios aqui, que consumiram muito da sua energia. É tempo de recuperação, de regeneração. É tempo de crescimento. De aguardar para que, no momento certo, possamos nos reencontrar e, quem sabe, caminharmos juntos em nova reencarnação.

Ah, antes que eu esqueça, nasceu um monte de bisneto desde a sua partida. Anhia ganhou mais uma neta, Beatriz (mais uma na família, né?), filha de Vanessa e Tiago, e um neto, Eduardo, de Evanice e Rafael. Tinho ganhou mais quatro netos - Havy e Alexia, de Naira, que os adotou (um grande gesto de amor); Davi, de Rodrigo e Marília; e Bernardo, de Bárbara e Ezio. Eu também ganhei o neto Leon, de Kaká e Bruna, mas já lhe contei isso, né? Ele fala pelos cotovelos igual a mim, acredite. Lu agora é avó. Pense numa vó doida. Ave Maria.. É de Irla e Felipe. A menina, Íris, é a xerox de Irla. E o caçulinha é Matheus, mais um neto de Tata e Antão, filho de Ítalo e Eliene. Mas acho que o senhor encontrou mamãe por esses dias e ela deve ter contado e mostrado as fotos desses bisnetos. Tomara que sim.

Eu o amo desde sempre, papai. Acredito até que de outras vidas. O senhor foi o homem que primeiro amei, o pai que admirei, o profissional que me orgulhava, o exemplo para buscar conhecimento e abraçar uma profissão com compromisso.

Hoje quero que sinta meu abraço forte. Se conseguirmos nos encontrar em sonho, quem sabe até conversarmos um pouquinho sobre política, embora atualmente só dá pra ter raiva e indignação. Melhor não. Bora conversar sobre nós e nossa saudade.

Sempre o amamos, papai. Sempre. E para sempre o amaremos.

Um xeiro da sua filha tagarela. O beijo das outras filhas e filhos o senhor já deve ter recebido também. É que eu gosto de carta. Vai ver que é a força do hábito da profissão.

Vanda.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Saudade - principal ingrediente da vida de quem fica neste lado do caminho


Oi, mamãe. 

Tudo bem por aí? Desejo que sim. Imagino que esta semana foi bem intensa, principalmente o domingo, né? Como foi intenso para todos do seu roseiral, certamente o foi também pra senhora. É que temos o costume de marcar datas, sendo o 1º de agosto uma data, desde sete anos atrás, de dupla celebração e um turbilhão de emoções. Todos nós adoraríamos que a senhora tenha tido acesso às homenagens que lhes foram prestadas por nós. Assim, mais que nunca, a senhora não terá dúvidas do quanto foi e é amada. Tata, sua primogênita linda, também recebeu muitas homenagens pelo aniversário dela.  Por já ser um dia de muita emanação de amor, de saudade e de gratidão, deixei pra mandar a cartinha hoje. Mas peço desculpas por levar tanto tempo desde a última carta ao céu.

A saudade tem sido o principal ingrediente das nossas vidas. Para a maioria dos seus filhos, netos e bisnetos acredito ser uma saudade sem dor. Só uma saudade. Mas uma saudade daquelas. Verinha diria que é uma "saudade da poxa" Eu diria que é uma "saudade da porra", mas não quero repetir isso pra não dizerem aí pelo outro lado do caminho que continuo falando assim mesmo com as ameaças de ter a boca lavada com sabão que papai fazia. Não é culpa da senhora nem dele É minha mesmo, que encontrei nessa palavra a forma de mostrar a intensidade dos meus sentimentos. E aos 59 anos fica difícil deixar de falar. Explique aí no céu que não é palavrão. 

Finalmente estou com a mente mais leve desde que saí da coordenação da Comunicação da Defensoria. Seria mentira dizer que não sinto saudade daquela loucura. Mas estou dedicada agora a aprender mais sobre como viabilizar financiamento para os projetos de lá. Essa mudança tem me permitido dias e noites mais tranquilos e mais leveza para curtir Leon, que a cada dia se torna mais curioso e inteligente. 

Retomei meus projetos de livros e a senhora se fará presente em dois deles. Cada vez que olho as anotações dos nossos bate-papos sobre sua infância, sua vida, fico emocionada. Às vezes dou risada. Em outras fico pensando como foi desafiadora esta sua última encarnação e como a senhora a enfrentou e venceu. Quero não me dispersar dessa vez. Digo diariamente, para mim mesma "foco, Vanda". Sei que a senhora terá orgulho de mim, ou mais orgulho.

Ah, mamãe, acho que, como nós aqui encarnados, a senhora deve se derreter toda com tantos bebês lindos que chegaram em nossa família nos últimos anos.  Sophia e Arthur (de Nana), e Maria Clara (de Bárbara), a senhora pôde abraçar enquanto ainda estava por aqui. Mais depois vieram Beatriz (de Vanessa), Eduardo (de Evanice), Havy e Alexia (de Nayra), Davi (de Rodrigo), Leon (de Kaká), Bernardo (de Bárbara), Íris (de Irla) e Matheus (de Ítalo). Ah, e tem Arthur (de Gaby), neto de Bepe; na casa dele estão todos tristes, porque Ana Laura chegou e teve uma passagem muito breve por aqui. Por problemas de saúde Deus a chamou de volta ao reino dos anjinhos quando estava com pouco mais de dois meses de vida. 

Seus bisnetos da nova geração

A movimentação por aí no outro lado do caminho tem sido grande desde o início dessa pandemia, né? E por aqui muito choro e dor de muitas famílias, inclusive da nossa, com a despedida de tio Cicinho, seu querido irmão, e de dona Terezinha, mãe de Eliene, que nem pôde abraçar direito o netinho Matheus. Tem sido de muita oração e fé, mas ao mesmo tempo de muita indignação por tantas loucuras e irresponsabilidades de muitos que resistem em se vacinar, em usar a máscara. É o livre arbítrio, infelizmente, que traz tantas consequências drásticas. 

Graças a Deus a vacina está avançando, apesar de todas as trapalhadas do governo. Do seu roseiral de filhos, genros e noras todos estão vacinados - a maioria já com as duas doses. A minha segunda dose deve acontecer dentro de uns 15 dias, acredito. Os netos e parte dos bisnetos mais velhos também estão vacinados. Loura também está vacinada. Assim podemos respirar um pouco mais tranquilos, mas sem descuidar das medidas de segurança.

O ano passado foi terrível. Ficamos meses sem ver Leon. Kaká passava aqui e só ele descia do carro, de máscara. Durante um ano e meio encontrei presencialmente Aninha uma só vez. Cida vi mais, pois fui levá-la para se vacinar. Nossos encontros têm sido por chamadas de vídeo no Whatsapp ou no Messenger. Muito triste. Muitas famílias tiveram que ficar afastadas. E muita, mas muita gente, sem poder seguir os protocolos de máscara, lavar as mãos, manter distanciamento. A senhora sabe que tem famílias que vivem amontoadas em uma casinha minúscula. E tem muita gente também em situação de rua. Quanta tristeza isso nos dá, mamãe. Mas seguimos procurando fazer o melhor, como a senhora nos ensinou.

Neste ano temos tido mais contato com Leon, Ele sempre vem aos domingos. Às vezes vem em um dia durante a semana e fica uma manhã conosco. Eu sou a vovó Danda e Roberto o vovô Bebeto. Fico tão grata a Deus pela vida e pela oportunidade de ver esse menino lindo crescendo. Adora dar novas funcionalidades aos brinquedos. Adora uma comidinha também, Menino bom de boca. Agora sei de todo o amor que a senhora sentiu, sente, por tantos netos e bisnetos. Cada um do seu jeito.

Aqui tem chovido muito e ainda está frio. Claro que é o nosso frio do nordeste, né? Mas é frio. Estou mandando casaco mais quentinho pra Tinho, pois em Paulo Afonso as madrugadas tem tido temperaturas de 17º em média. Ui, que frio!! Por favor explica aí pro povo que está ao seu lado que essa temperatura é muito baixa pra quem convive com um calor de mais de 30° do sertão.

Mamãe, sempre peço para me encontrar em sonho com a senhora. Mas não consigo lembrar se a vi durante o sono, como já lembrei três vezes ao longo desses sete anos. Meu pedido é sempre para poder sentir seu abraço, dar meu abraço de caranguejo bem massageado e dar um monte de beijinhos nos seus olhos. Minha mariquinha, a senhora sabe como a amo e como sou exagerada em beijos e abraços. Se em algum encontro eu a abraçar com muita força, vá desculpando, pois é a saudade que está grande.

Por favor, dê o meu abraço a todos os nossos amores que já estão aí no outro lado do caminho quando os encontrar.

Que seu coração, seu espírito, esteja e continue em paz, confiante de que, no tempo de Deus, reencontrará todo o seu roseiral. 

Um beijo cheio de amor e saudade da sua filha tagarela.

Vanda


Cuide dos laços de amor: em um piscar de olhos a vida passa

Vanda Amorim · Cuide dos laços de amor: em um piscar de olhos a vida passa Oi, tio Mariano Tudo bem? Num piscar de olhos já se passaram...

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