Querido papai
Hoje amanheci lenta. O senhor sabe que não sou assim. Ao
contrário, sou elétrica desde o acordar. Mas acordei desse jeito e nem estava
chovendo. Tomei café com Roberto e depois fui para o trabalho, mesmo sem muita
vontade. Fiquei me perguntando o que eu tinha. Afinal, não era sono, pois eu
tinha dormido bem. Devo ter sonhado, mas não lembro o quê.
Já no trabalho, ao olhar a data na tela do computador
entendi o que estava acontecendo. Era uma moleza, um vazio motivado pela
saudade. O vazio criado por não ouvir
sua voz grave, sempre com bom humor. Um vazio aberto há sete anos, quando o
senhor foi chamado pelo Pai Celestial para se despir das vestes carnais e
regressar ao lar espiritual. Acredito que suas outras 13 filhas e seus três filhos devem sentir hoje o mesmo que eu, tão
grande é o nosso amor pelo senhor.
Não tenho, com frequência, a bênção de um encontro com o
senhor, mesmo que em sonho. Há muito tempo isso não acontece, o que faz a
presença do vazio da sua ausência física ficar ainda mais intensa.
Quase todos os dias falo com o senhor e com mamãe por meio
da foto de vocês dois. Oro por vocês e declaro meu amor, minha saudade e minha
gratidão. Não sei como vocês recebem essa mensagem aí onde estão. Também não
sei como estão, pois o que faço é só um monólogo de saudade, de uma grande
saudade, tal qual esta cartinha que envio ao céu. Concentro-me para tentar
sentir o calor do seu abraço, de ouvir sua risada vigorosa e grave, mas nem
sempre tenho retorno. Alimento-me, então, da fé, de uma certeza que não sei
explicar, sobre vocês estarem bem, mesmo
que sintam saudade de todos nós.
A roda da vida segue por aqui. A sua primogênita, Fátima, a
quem teve com menos de 24 anos, prossegue cercada de bênçãos, caminhando para a
cura. O mesmo com seu filho Roberto, que há quase cinco anos perdeu os movimentos
das pernas em acidente. A vida tem sido de aprendizado para eles e para todos
nós. E a vida continua nos presenteando com novos companheiros de caminhada.
Desta vez quem chegou foi Anthony Miguel, filho de Everton e a esposa Camila.
Sim, Everton é o pequeno corredor filho de Evanice e neto da nossa neguinha
Vania e de Erivelton. Ele agora é pai de um lindo garotinho.
Mas o giro dessa roda também nos levou pessoas queridas, a
exemplo de Renato de Binha. Mas creio que dessa partida o senhor já tem
conhecimento. Só não sei se vocês já tiveram algum encontro por aí. Essa
mudança brusca do lar físico para o lar espiritual por Renato foi um baque pra
Binha e a família. Mas ela está consciente que a missão dela ainda não está
cumprida e que tem que prosseguir, mesmo com saudade do amor da sua vida.
Hoje minha carta não é longa, embora em minha mente estejam
passando flashes dos nossos encontros e desencontros. Eles foram muitos. Tanto
de um quanto do outro. Pudesse eu teria feito com que só tivessem acontecido os
encontros, mas nem sempre conseguimos fazer só o que queremos, né? Lembro-me de
o senhor ter me dito isso várias vezes.
Como sempre, envio essa carta ao outro lado do caminho, mas
sei que, já ao escrevê-la, com meu amor e minha mente consigo plasmá-la para
chegar mais rápido até o senhor.
Papai, vamos manter-nos conectados pelo fio invisível desse
amor que nos une, que o une a todos os seus filhos, netos, bisnetos (e agora
trineto).
Eu o amo desde sempre e para sempre, papai. Fique em paz.
Aqui também buscaremos ficar bem, até o momento do nosso regresso, do nosso
reencontro, que Deus há de permitir.
Da sua filha saudosa,
Vanda.
Que prazeroso e alegre momento vivi ao ler esta carta. VANDA você é uma pessoa iluminada, sou privilegiada por você permitir que fazer parte desse momento.
ResponderExcluirAmei linda carta de amor espiritual
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