Querido papai
Desejo que esta cartinha o
encontre bem e em paz aí do outro lado do caminho. Já faz mais de um ano que
mandei uma cartinha pro senhor. Sem falar da que mandei para o senhor e mamãe,
para lerem juntos, no Natal. Peço desculpas. Não ter mandado mais uma cartinha
pro céu não significa que eu não tenha saudade. Tenho, e não é pequena. Como
poderia não sentir saudade do senhor, meu amor, meu ídolo e minha inspiração
para gostar de trabalhar? Tenho saudade sim e muito amor.
Por que então demorei tanto? É
que levou tempo para eu entender algumas coisas, entre elas, porque fiquei
brava com o senhor depois do Dia dos Pais, no ano em que mamãe regressou ao lar
espiritual. Lembro-me que estava na Eletrônica o senhor, eu, Tata, Toca e
Sandrinha. O senhor achava que eu tinha que ir conversar com Delma, para
explicar melhor o que tinha dito e gerado tanta confusão. Eu disse que não ia.
Que o senhor poderia muito bem explicar a diferença entre compreensiva e mais
compreensiva.
Muito zangada, disse ao senhor
que eu havia cansado de fazer o seu papel na missão de unir todos os seus
filhos, os de mamãe com os de Delma. Disse, ainda, que não ia mais mendigar que
o senhor fosse nos ver no final do ano porque para isso bastava o senhor querer
e pedir para que um de nós fosse buscá-lo. Eu estava muito triste. Muito mesmo.
Nós choramos, mas eu não quis mais conversa. Disse apenas que eu ia amá-lo
sempre e que toda vez que eu fosse a Paulo Afonso eu iria vê-lo, fosse na sua
casa ou na Eletrônica.
No final do ano, nova frustração.
Fui à sua casa pra conversarmos e não consegui ter 5 minutos sequer com o
senhor, só nós dois. Perguntei por que a gente não podia conversar só e o
senhor disse "vou fazer o quê, minha filha? Pedir que as pessoas nos
deixem sozinhas?". Eu respondi que sim, porque o senhor tinha direito a
conversar sozinho com sua filha. Mas não foi o que aconteceu, né?
Mas, por ter acreditado na
minha definição da infância de que o senhor era meu herói, e heróis não morrem,
até me deixei contagiar pela ideia, ou melhor, a certeza de que o senhor era
imortal. Eu ainda o via tão apegado às suas coisas, à eletrônica, que temia
como seria o seu despertar no outro lado do caminho. Chorei também porque não
pude, não pudemos, cuidar do senhor em algum momento, como queríamos, como
fizemos com mamãe. O curioso é que eu sabia que o senhor precisava
regressar. Meu cérebro havia processado a informação, mas meu coração,
não. Nem mesmo ter ouvido o senhor dizer que me amava, por telefone, na
véspera da sua partida, aliviou minha dor.
Mas, com o passar do tempo, isso foi ficando cada vez mais difícil, principalmente depois que mudei pra Salvador e ia apenas duas vezes no ano; depois que a vida lhe tirou a visão, deixando que seus lindos olhos azuis vissem apenas sombras. Eu procurava compensar ligando pro senhor e falando por um tempo. Não me importava se a conta ficasse alta. Depois, até mesmo falar por telefone ficou difícil. Sem a visão, o senhor não sabia que o celular tinha descarregado e nem sempre conseguia falar pelo telefone fixo, que dava ocupado ou chamava e ninguém atendia.
Apesar de saber da fragilidade
em que se encontrava - idoso e cego, sem autonomia, eu achava que o senhor
tinha que defender nosso direito de amá-lo, de abraçá-lo, sem ser com hora
marcada e apenas na Eletrônica, seu refúgio. Acho que a dor que eu sentia
devia ser igual ao que os outros filhos do Roseiral de mamãe sentiam. Como foi
difícil, principalmente depois da partida de mamãe, só poder vê-lo na
eletrônica. E quando o senhor adoeceu, doeu mais ainda, porque não conseguíamos
ficar com o senhor. Os conflitos tinham voltado desde que aconteceu
a formalização do seu segundo casamento sem que nenhum de nós
soubesse. Sim, eu lembro que o senhor justificou e eu entendi, mas isso não
tirou nossa tristeza.
Na Semana Santa de 2017, ano em
que o senhor regressou ao lar espiritual, eu quis muito ir pra Paulo Afonso,
para abraçá-lo, mas Roberto achou melhor não. "Você não vai conseguir
vê-lo e vai chorar", disse ele. E não fomos. Quando o vi de novo, em 4 de
junho, o senhor não estava mais lá, apenas o corpo que lhe fora emprestado por
quase 84 anos. No velório, quando o padre falou da sua solidão
confessada, chorei porque constatava que o senhor sentia o mesmo que a
gente. Ainda falei alguma coisa ali, mas não consegui lhe fazer uma
homenagem, no sepultamento, como fiz à mamãe, à tia Neném e à tia Teca. Toca
pediu que eu fizesse, mas não me senti à vontade. Como aconteceu durante tantos
anos, eu sentia que tinha muitos olhos me olhando, alguns não muito amistosos.
E eu não queria falar para tantas pessoas; queria ter conversado sozinha com o
senhor.
Papai, não pense que é fácil falar tudo isso. Por isso adiei por muito tempo. São 5 anos desde sua partida. Eu não estava pronta e nem queria fazê-lo chorar; não queria incomodá-lo nesta sua fase exclusivamente espiritual, onde busca a regeneração das dores aqui sofridas. Mas precisava liberar de vez meu coração dessa mágoa. Hoje não choro como aconteceu em outros dias, quando eu pensava em escrever esta carta. Hoje, mais que nunca, o amo incondicionalmente. Muito, como sempre.
Desejo de todo
coração que o senhor também fique leve, que possamos restabelecer nossa conexão
e, quiçá, termos uma autorização para que, enquanto o meu corpo repousa, nos
encontrarmos, nos abraçarmos fortes e dizermos pessoalmente o quanto nos
amamos.
O senhor tem visto mamãe? Há
três dias mandei uma cartinha pra ela e contei que finalmente vou conseguir
publicar meus textos. Em breve terei lançado dois livros e estou muito feliz.
Um é de poesias e outro sobre memórias afetivas da infância. Veja com mamãe os
detalhes, tá? Se vir vovô João e vovó Floriza, tio Manoel, tio Mariano e seus
outros irmãos e sobrinhos que estão por aí, diga que tenho saudade deles e
mando um abraço.
Vou ficando por aqui, papai,
com a certeza que, a partir de agora, caminharemos melhor. Eu o amo muito, do
tamanho do universo.
Da sua filha tagarela,
Vanda.