Tudo bem? Num piscar de olhos já se passaram três anos desde o seu retorno ao lar espiritual. Refletindo aqui, vejo que nossa vida teve muitas mudanças que aconteceram em um piscar de olhos, sem que nos déssemos conta.
De criança a adolescente pareceu uma eternidade, mas foi num
piscar de olhos, acompanhado de perto pelo senhor. As idas à sua casa, com a
sua amada Menininha, foram diminuindo. É que, num piscar de olhos nós - a família
do seu irmão Nilton - fomos envolvidos em um turbilhão de sentimentos:
frustração, desilusão, mágoa... Sentimentos comuns quando a família não tem
mais a exclusividade do pai. Mas o senhor continuou ali disponível com seu
amor, carinho e respeito.
Em uma fase muito próxima a essa piscada, me apaixonei pela
primeira vez. Recordo-me da sua surpresa e seu cuidado ao parar um carro com
placa de Salvador na Guarita Principal de acesso à Vila da Chesf, onde estava
trabalhando como membro da Guarda da Chesf, e descobrir que era o meu namorado
querendo me visitar em nossa casa na rua L. Num piscar de olhos esse namoro foi
interrompido por 10 anos e retomado desde 1989, sem novas interrupções e com um
amo construído e consolidado.
Apesar do seu amor disponível, acho que a maioria dos filhos de Nicinha se afastou do senhor, que corretamente não julgou nem se afastou do seu irmão. Como adulta entendo que nosso sentimento de abandono do tio querido foi um equívoco. Mas isso acontece quando deixamos o nosso coração se encher de mágoa, né? Importante dizer também que nunca deixamos de o amar, assim como sempre amamos intensamente o nosso pai.
Num piscar de olhos fui morar no Recife, levada por Toca
(Vitorinha) para me preparar para o vestibular e tentar realizar o sonho de ser
jornalista. Papai foi contra, não sei se o senhor lembra. E nas vindas a Paulo Afonso o
visitava. Amava seu abraço carinhoso e a atenção que me dava, mesmo quando eu
interrompia o conserto de algum rádio que estava fazendo.
Voltei seis anos depois, jornalista de fato e de direito
havia dois anos, com diploma, orgulhosa. E seu orgulho era igual ao meu. Mas,
em novas piscadas de olhos, fui para Teixeira de Freitas, voltei e depois fui
para Salvador, em 1989, onde me assentei depois de reencontrar aquele amor que
o senhor quis barrar na guarita em 1979. Um amor como o seu com Menininha:
companheiro, cúmplice, intenso e leal.
Num piscar de olhos o senhor saiu da Bahia para Alagoas, seu
estado natal, e fez morada em Arapiraca. E a partir daí nos perdemos um pouco.
Os contatos se restringiam a mensagens no Whatsapp. Nos nossos corres não fui
ao seu encontro e quando o senhor ia a Paulo Afonso eu não estava. Fomos nos
afastando sem que eu me desse conta.
Então, num piscar de olhos soube que o senhor estava doente
por acaso, ao falar com Binha, uma das queridas irmãs trazidas por papai do seu segundo casamento. Confesso aqui, tio Mariano, que fiquei aturdida
ao saber da gravidade. E fiquei magoada por nenhum dos filhos de mamãe saber do
que se passava. A mágoa lá de trás voltou forte: fomos excluídos e esquecidos, pensamos.
O novo piscar de olhos foi mais doloroso: em menos de
24 horas desde que soube da sua enfermidade, o senhor partiu sem que eu tivesse
ouvido sua voz pela última vez. Partiu sem ver o livro que publiquei, com
poesias que escrevi para o meu amor, Roberto.
Só agora, três anos desde o seu desencarne, sento-me para
escrever essa cartinha e enviá-la ao céu, para o senhor. No coração não tenho
mágoa. Tenho saudade. Ficou o aprendizado da importância de ficarmos mais atentos
aos laços de amor criados desde que nascemos para que não se rompam num piscar
de olhos. Hoje sinto, e sei, que sempre estive em seu coração, assim como esteve e está no meu. Aliás, estivemos,
nós, filhos de Nilton, sem distinção.
Desde 2022 o senhor está em nova morada e em um corpo
espiritual. Como católico fervoroso e praticante, certamente via o pós-morte
diferente de mim. O senhor acredita na ressurreição (volta ao mesmo corpo,
mesmo após a morte, como ocorreu com Jesus Cristo). Eu acredito na reencarnação (retorno
à vida em outro corpo). Engraçado que nunca falamos sobre isso enquanto estava
aqui, encarnado. Acho que em respeito à crença um do outro. Independentemente do
que acreditava ser o lar espiritual, só o senhor sabe da sua realidade, que
desejo ser de paz, de reencontros e de reflexão. O aprendizado deve ser
constante para a evolução espiritual, né?
Meu tio querido, de onde estiver, me perdoe pelas ausências, me envie sua benção e
receba meu amor, minha gratidão e minha saudade.
Da sua sobrinha Vanda.